Já era quase meia-noite e aquela luz
branca acesa estava fazendo meus olhos dorem. No teto do meu quarto tinha um adesivo escrito "Seja bem-vindo à Caixeiras". Eu moro aqui há 16 anos, ou seja, desde que nasci. É uma cidade pequena, no interior de Condol, e tem pouco mais de 14 mil habitantes. Eu havia passado o dia todo vendo filme de comédia e o tempo passou tão depressa que nem pude perceber. Sentei na escada e fiquei vendo meu pai trabalhar na mesa sala.
- Você não tem aula amanhã? — ele me perguntou
sem tirar os olhos dos papéis sobre a mesa.
- Tenho, mas perdi o sono. — minha voz ainda estava meio rouca, acho que de sono. — No que o senhor está
trabalhando? O senhor precisa descansar,
pai.
- Eu sei. — ele me deu aquele seu sorriso torto que sempre dava quando sabia que eu estava certo e voltou o olhar aos seus papéis — Está ansioso para o primeiro dia de aula amanhã?
- Não mesmo. Eu queria mais um pouco de férias. — eu sei que ele queria que eu fosse estudioso e até que sou, mas nunca fui fã de ir a aula e ele sabia muito bem disso. — Eu estudo lá minha vida inteira, conheço todo mundo.. Então não tenho essa ansiedade.
- Vai que tem alguma menina nova..
- Estou esperando por isso.
-
Acordar as seis e meia da manhã, colocar a farda, tomar o café da manhã era horrível, mas, pior ainda era ouvir meu pai gritando que eu estava atrasado. Como assim? A aula começa sete e meia e ainda era quinze pras sete. Acho que é mal de pai..
No caminho da escola ele foi falando sobre não ser expulso de sala, não brigar com meus "coleguinhas" e não tirar notas baixas. A palavra "coleguinha" fazia eu me senti como se ainda estivesse no maternal e usando fraldas.
Aquele corredor me dava sono. Branco, com os armários da cor azul para os alunos guardarem suas coisas, com vários alunos, novatos e veteranos, passando de um lado para outro, professores e coordenadores dando boas-vindas e todo aquele besteirol de todo início de aula. Lá no final do corredor, perto da sala, estava Lucas, meu melhor. Magro, alto, moreno.
- Achei que você não viria hoje. — e me deu um abraço forte. O Lucas é meu melhor amigo desde os sete anos, quando ele entrou aqui na escola.
- Bem que eu queria, mas você conhece meu pai, né?
- "Primeiro dia de aula é aula normal" — nós repetimos juntos a frase. Meu pai sempre falava ela quando eu dizia que no primeiro dia de aula não tinha nada.
Nós dois sentamos nas últimas cadeiras do lado esquerdo da sala, como sempre fizemos desde a quarta série.
A primeira aula foi muito chata, com a Alice de Biologia, a segunda foi insuportável, com o Davi de Álgebra. Eu já estava olhando pro relógio, torcendo para que chegasse logo as 10:20, para ir ao intervalo. Mas agora que tinha começado a terceira aula, de História, com o professor George. Ele é alto, magro, loiro e tenho os olhos azuis. E meu tio, irmão do meu pai. Ele sempre tenta me fazer de "aluno exemplo" por ser sobrinho de professor, mas todo mundo sabe que passo longe disso. Até tiro boas notas, mas estou sempre em conflitos no colégio. Seja por discussão com professor em sala de aula, seja por não gostar de certas pessoas nessa escola.
Já passava das 10 horas quando ela entrou na sala. "Com licença, professor", foi a frase que ela disse.
Cabelo preto, pele branca, lábios vermelhos. Linda! E sentou na única cadeira vazia que havia na sala: na minha frente! Qual seria o nome dela? Será que tem namorado? Ela é tão linda! Tenho que conhecê-la!
Pra minha sorte o George mandou a gente fazer uma atividade em dupla e, até pensei em chamar o Lucas, mas eu, realmente, tinha que conhecê-la. Então, aproveitei e oportunidade e a convidei pra fazer dupla comigo. Criei coragem, cutuquei ela com a tampa da caneta e perguntei - Você que fazer dupla comigo? — Ela aceitou!
Puxei a minha cadeira e coloquei ao lado da dela e começamos a fazer a atividade que o professor havia passado. Vinte questões pra entregar até amanhã.
Enquanto fazíamos a tarefa, trocavámos olhares e até conversamos.
- Você é novata?
- Sim. Morava na cidade, então me mudei pra cá.
- Com os pais?
- Não. Meu pai faleceu e minha mãe trabalha muito. Então estou morando com minha avó paterna. E você?
- Moro aqui desde sempre.
- Com os pais?
- Apenas pai.
- E sua mãe?
- Somos só eu e meu pai. E tenho um irmão, mas moral em São Mota.
- Mais velho?
- Sim.
Enquanto conversávamos, descobri várias coisas. O nome dela é Luana, tem 16 anos, é solteira e, assim como eu, não suporta acordar cedo. Ah, e ela é prima e mora com a Adriana, ex namorada do meu irmão Felipe. Não sei se isso é bom. Afinal, o namoro deles não terminou bem e, até hoje, ela me olha torto!
Eu nunca havia visto essa garota antes e era inexplicável isso que eu estava sentindo. Eu não sou assim. Não sou de me apegar, todo mundo sabe disso! Mas eu quero conhecê-la melhor. Peço seu número ou não?
Bom, eu fiz um livro e todo dia vou escrever um capítulo aqui. Espero que gostem e até amanhã!